Intérpretes de libras se revezam em plantão voluntário para partos de surdas
Criado por quatro intérpretes, o projeto Libras no Parto atende gestantes que dão à luz fora do horário comercial, quando o profissional fornecido pelo Estado não está disponível; são 16 partos em sete anos.
Dezesseis partos acompanhados em sete anos, de graça e a qualquer hora do dia: é a conta de um grupo de intérpretes de libras que se organizou para que nenhuma mulher surda precise dar à luz sem entender o que a equipe médica está dizendo.
A brecha que elas cobrem tem hora marcada. Os intérpretes pagos pelo Estado atendem em horário comercial — e bebê não nasce em horário comercial. Quem entra em trabalho de parto à noite ou no fim de semana costuma chegar à maternidade sem ninguém que fale a sua língua, situação em que crescem as dúvidas, a insegurança e o risco de violência obstétrica, conforme o Imagem da Ilha.
O Libras no Parto nasceu há dois anos dessa percepção. O atendimento individual, em que cada profissional era procurada diretamente pela gestante, já vinha sendo feito havia sete anos; quando ficou claro que uma intérprete sozinha não consegue ficar de sobreaviso o tempo todo, três delas se juntaram e chamaram uma quarta colega para dividir os plantões — Vanessa Rizzotto, Aline Iolanda, Juliana Sousa Pereira e Fabiana Albuquerque.
O funcionamento é simples: o chamado da gestante chega ao grupo, e ali mesmo se decide quem pode ir naquele dia, até que o pedido esteja coberto. Todas acompanham as informações da gravidez das mulheres atendidas, o que encurta o tempo de resposta quando o trabalho de parto começa.
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No pré-natal a procura é menor. Consulta tem hora marcada, e hora marcada permite acionar com antecedência o intérprete do Estado. O aperto está no parto, que não avisa — e nos alarmes falsos, quando as contrações fizeram parecer que a hora havia chegado.
Em agosto, a iniciativa foi reconhecida pelo Prêmio IGK, do Instituto Guga Kuerten, na categoria de ação voluntária. Ao Imagem da Ilha, Vanessa Rizzotto afirmou que o efeito mais importante do prêmio foi tirar o projeto do circuito restrito da comunidade surda: mais gente passou a saber que ele existe e, com isso, que existe a carência que ele tenta cobrir. Ela ainda não esteve em nenhum parto e disse ao mesmo veículo que as colegas relatam uma emoção difícil de medir — pelo nascimento em si e por ser o direito de a mulher ser atendida na própria língua.
As quatro trabalham como intérpretes em outras áreas e defendem a regulamentação da profissão, que exige estudo e dedicação, mas escolheram manter o Libras no Parto como ação voluntária.
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