STF investiga se Moro extrapolou competência quando era juiz em Curitiba
Toffoli autorizou em dezembro de 2025 busca e apreensão na 13ª Vara Federal; o candidato ao governo do Paraná nega ilegalidades e diz que seguiu a jurisprudência da época.
Sergio Moro, candidato ao governo do Paraná que aparece à frente nas pesquisas, é alvo de uma investigação aberta no Supremo Tribunal Federal sobre a sua conduta nos 22 anos em que foi juiz — parte deles no comando da vara federal de Curitiba que concentrou os processos da Operação Lava Jato. Pesam sobre ele acusações de ter extrapolado a própria competência ao determinar ou conduzir diligências contra pessoas que, pelo cargo que ocupavam, só poderiam ser investigadas por tribunais superiores. Nenhuma delas está comprovada: é justamente o que a apuração ainda precisa esclarecer.
Em dezembro de 2025, o ministro Dias Toffoli autorizou uma busca e apreensão dentro da própria 13ª Vara Federal de Curitiba, cumprida pela Polícia Federal. A medida, tida como excepcional, veio depois de a unidade judicial deixar de enviar documentos e mídias pedidos repetidas vezes pelo Supremo. Toffoli havia determinado que fossem reunidos processos e arquivos de 18 ações que tramitaram ali, boa parte delas antiga.
As acusações partem do depoimento do empresário e político Tony Garcia, preso por ordem de Moro numa investigação sobre o Consórcio Garibaldi e, depois, autor de um acordo de colaboração firmado em 2004 sob a condução do então juiz. Em março de 2021, ouvido pela juíza Gabriela Hardt, que sucedeu Moro na vara, Garcia afirmou ter agido como uma espécie de agente infiltrado a serviço do juiz e do Ministério Público Federal, muito além do que previa o acordo. O relato só ganhou impulso dois anos mais tarde, com a chegada de Eduardo Appio ao comando da unidade, quando o caso passou às mãos da Procuradoria-Geral da República e da PF. O material apreendido continua em análise.
Em reportagem de Daniela Lima publicada pelo UOL no começo deste ano, entre o material localizado na vara aparecem transcrições de escutas. Elas alcançam políticos com foro privilegiado e também desembargadores do TRF-4 — e os grampos contra esses magistrados teriam partido de outro colaborador da unidade, o advogado Sérgio Costa.
O que Moro responde
Moro nega ilegalidades. Segundo o Bem Paraná, ele declarou publicamente em outubro de 2023 nunca ter autorizado "gravação ou medida investigatória contra magistrados" da Justiça Federal, do TRF-4 ou do STJ. Ainda segundo o Bem Paraná, documentos localizados depois na vara põem essa versão em xeque, porque neles o então juiz assina despachos que determinam ou sugerem interceptações de pessoas com foro privilegiado. O senador diz não ter tido acesso aos autos do inquérito, classifica os relatos como "fantasiosos" e sustenta que, no período de 2004 a 2006, a jurisprudência e as práticas então vigentes autorizavam o que foi feito.
A apuração ainda precisa estabelecer quais autoridades foram efetivamente monitoradas, quem determinou cada diligência, que destino teve o material produzido e se o que o então juiz mandou fazer cabia na competência de uma vara de primeira instância.
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