Sintomas de depressão atingem 66% dos estudantes de medicina no Brasil
Pesquisa do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental ouviu 1.026 alunos de 74 faculdades e encontrou índices bem acima da média mundial, com a falta de tempo no topo das queixas.
A rotina que forma médicos no Brasil está cobrando um preço alto de quem a atravessa. Dois em cada três alunos de medicina ouvidos em um levantamento nacional relataram sintomas de depressão de intensidade moderada ou grave, o equivalente a 66% dos entrevistados. Metade deles, 50,5%, também apontou sinais de ansiedade.
Os números vêm de um trabalho do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental, publicado na revista científica Brazilian Journal of Psychiatry, que investigou de que maneira o ambiente das faculdades, as pressões acadêmicas e as características de cada instituição influenciam a saúde mental durante a formação médica.
Participaram 1.026 estudantes de 74 faculdades públicas e privadas, do primeiro ao sexto ano, todos com 18 anos ou mais e em adesão voluntária. Os dados foram recolhidos entre setembro de 2023 e setembro de 2024.
O Brasil aparece muito acima do resto do mundo. As estimativas internacionais para quem cursa medicina indicam 27,2% com sintomas depressivos e 33,8% com sintomas de ansiedade ao longo da graduação. No caso da depressão, o resultado brasileiro é mais que o dobro.
Perguntados sobre o que mais pesa, os alunos colocaram a falta de tempo em primeiro lugar. Na sequência apareceram a cobrança por desempenho, os relacionamentos, a preocupação com a própria saúde e as dificuldades de aprendizagem.
Um dos autores do estudo, o psiquiatra Rodolfo Furlan Damiano, ligado ao mesmo centro de pesquisa, disse à Folhapress que o sofrimento acabou incorporado ao processo de formação como se fosse etapa natural. Ele o descreve como parte de um "currículo oculto", em que a noção de que sofrer e não ter tempo fazem parte do caminho é transmitida de uma geração de estudantes para a seguinte.
O efeito prático aparece na agenda de quem estuda. Em entrevista à Folhapress, Natália Barros, de 22 anos, aluna do terceiro ano na Unifesp, contou que atividade física e hobbies foram as primeiras coisas eliminadas depois que entrou no curso: trocou a academia pelo balé justamente por ser uma vez na semana. Vinda de João Pessoa para São Paulo, ela relata cansaço, falta de concentração, sono alterado e perda de apetite.
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