Médico investigado por lote falso de remédio oncológico fecha delação
A Operação Placebo apura fraude em licitações, superfaturamento e falsificação de remédios contra o câncer; a suspeita nasceu quando uma funcionária de hospital estranhou a embalagem de um frasco.
Um acordo de delação premiada assinado por um médico levou a uma nova etapa a investigação sobre remédios falsificados entregues a pessoas em tratamento contra o câncer. A apuração corre na delegacia de São Gabriel, no Rio Grande do Sul, e reúne suspeitas de fraude em licitações, compra superfaturada e adulteração de medicamentos oncológicos.
Fernando Borges da Silva, médico que responde ao inquérito, já teve o acordo homologado pela Justiça, conforme apurou a reportagem da RBS TV. Dois empresários investigados, Lisandro Henriques Hermes e Rodrigo Nascimento, ainda negociam os seus. O delegado Daniel Severo, responsável pelo caso, não confirma as tratativas. Nada disso é condenação: o que existe até aqui são acusações, que ainda serão discutidas no processo.
Uma embalagem estranha no hospital
O caso nasceu na Santa Casa de Caridade de São Gabriel. Uma funcionária da oncologia desconfiou de um frasco e chamou a polícia; procurado, o laboratório que fabrica o produto — o Enhertu — não reconheceu aquele lote como seu, e a distribuição foi suspensa.
Ao Fantástico, o delegado descreveu o que saltava à vista nas caixas. "Os indícios de falsificação são muito grandes, desde o invólucro, desde a caixa com a coloração um pouco mais esmaecida, erros grosseiros de grafia, até o comportamento mesmo do remédio", afirmou. Em parte do material, a caixa e a bula estavam escritas em idiomas diferentes.
Em 29 de junho, a Polícia Civil gaúcha cumpriu 56 mandados de busca e apreensão. Na casa de Lisandro, apontado como alvo principal da Operação Placebo, foram achadas caixas e caixas de remédios com sinais de adulteração; ele foi preso em flagrante e teve a prisão preventiva decretada. O empresário nega envolvimento e afirma que o material estava ali para descarte. O delegado rebate: os produtos não traziam identificação alguma, de modo que qualquer informação poderia ser impressa nas cartelas.
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Dois meses sem o tratamento
Maria Jupira, moradora de São Gabriel, tratava um câncer de pulmão com um medicamento que o SUS não fornecia. As filhas foram à Justiça para que o Estado pagasse a compra, com um advogado indicado pelo médico dela — o mesmo que agora fechou delação. Depois que o lote suspeito foi apreendido, ela passou cerca de dois meses sem o tratamento adequado, chegou a receber outras medicações e morreu aos 57 anos. A família diz não saber se ela tomou algum dos remédios sob suspeita.
"Ela só chorava muito, com muita dor na perna. A perna dela começou a inchar e inchar, e não caminhava mais", contou ao g1 a filha Valdirene Munhoz Rodrigues.
Mara Rodrigues é a segunda paciente citada no inquérito. Moradora de Santana do Livramento, ela teve o câncer de volta, agora com metástase óssea, e obteve autorização judicial para receber medicação. Ao Fantástico, relatou que o tratamento não deu o resultado esperado e que convive com dores fortes, tratadas com morfina. "Essa noite mesmo acordei às 2h30 e só fui dormir às 5h", disse.
Conforme a apuração policial, o esquema envolveria empresários, advogados e profissionais da área da saúde, com pacientes atingidos em várias cidades do país.
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